O Mad in Brazza 2026 chega à sua edição em Curitiba com um recorte significativo para a música urbana brasileira. O festival reúne grandes nomes do rap, trap e R&B nacional e destaca a presença de artistas mulheres que estão ajudando a redefinir o espaço feminino em uma cena historicamente dominada por homens.
Entre as atrações confirmadas, estão Slipmami, Budah e MC Luanna, artistas que, apesar de suas trajetórias e propostas distintas, compartilham um elemento em comum: a presença feminina na linha de frente da cultura urbana, sem precisar pedir licença.
A importância dessa presença se torna ainda mais evidente ao analisarmos o cenário geral da indústria musical. De acordo com o relatório “Mulheres na Música 2026”, elaborado pelo ECAD, embora o rendimento feminino em direitos autorais tenha crescido 33% em 2025 e mais de 54 mil mulheres tenham ingressado na gestão coletiva da música no último ano, elas ainda representam apenas 10% dos beneficiários dos direitos autorais distribuídos no Brasil. Além disso, entre os 100 autores com maior rendimento no país, apenas 2% são mulheres, e somente 11 das 100 músicas mais executadas em shows têm participação feminina na autoria. Isso demonstra que, embora a presença feminina esteja crescendo, a desigualdade ainda é uma realidade estrutural.
Rap feminino não é tendência, é construção
Discutir a presença de mulheres no rap e no trap atualmente não pode ser visto como um detalhe de programação ou uma cota simbólica. A participação feminina na música urbana brasileira é resultado de anos de luta, resistência e construção em um cenário que, muitas vezes, só abriu espaço para mulheres quando elas já eram grandes demais para serem ignoradas.
No rap, essa disputa é dupla. Além de provar seu talento, técnica, presença e identidade, as mulheres também enfrentaram a ideia ultrapassada de que a cultura hip-hop é naturalmente masculina. No entanto, a história tem mostrado o contrário. O rap feminino sempre existiu, sempre produziu narrativas, sempre trouxe denúncias, estilo, autoestima, vivências e visões de mundo. O que faltou, por muito tempo, foi estrutura, investimento, escala e reconhecimento.
Portanto, quando um festival como o Mad in Brazza reúne artistas como Slipmami, Budah e MC Luanna, o foco não está em “ter mulheres no line-up”. O que se busca é evidenciar que a cena urbana brasileira se tornou mais interessante, plural e real com a ocupação desses espaços por vozes femininas.
Slipmami e a estética de uma nova geração
Slipmami é um dos nomes que melhor representam a virada estética da nova geração. Misturando trap, funk, R&B e cultura da internet, a artista construiu uma identidade própria, com visual, linguagem e sonoridade reconhecíveis.
Seu impacto não se limita às músicas, mas também à forma como ocupa o imaginário da cena. Slipmami simboliza uma geração de artistas que compreende a estética como uma extensão da música. A imagem, o comportamento, a maneira de se comunicar e a sonoridade caminham juntas.
Em um festival voltado para rap e trap, sua presença reforça a ideia de que a nova música urbana brasileira não se encaixa em uma única fórmula. O som pode flertar com funk, R&B, trap, pop e ainda assim permanecer conectado à rua, à juventude e à cultura digital.
Budah e a força do R&B dentro da música urbana
Budah chega ao Mad in Brazza como uma das vozes que ampliam o campo emocional da música urbana nacional. Sua obra transita entre R&B, rap, soul e sonoridades contemporâneas, abordando temas como autoestima, relações, vulnerabilidade e vivência feminina.
Esse tipo de presença é crucial, pois demonstra que o rap e o trap não se limitam a agressividade, punchlines ou performances dominantes. A música urbana também é um espaço de afeto, fragilidade, desejo, reconstrução e identidade.
Budah representa esse espaço com naturalidade. Ela não entra na cena tentando reproduzir uma fórmula masculina. Ao contrário, sua força reside em afirmar outra perspectiva, outra textura e uma nova forma de narrar sentimentos dentro da cultura urbana.
MC Luanna e o rap como denúncia e posicionamento
MC Luanna ocupa um lugar essencial nesse contexto. Sua presença no palco traz letras que dialogam com questões raciais, sociais e o protagonismo feminino. Em uma cena onde muitas mulheres ainda precisam transformar suas vivências em resistência pública, Luanna se destaca como uma artista que compreende o rap também como uma ferramenta de denúncia.
Seu trabalho reforça uma verdade antiga do hip-hop: a música urbana nunca foi apenas entretenimento. Desde o início, o rap foi uma forma de abordar território, desigualdade, violência, raça, gênero, sobrevivência e identidade.
No caso de MC Luanna, esse discurso ganha ainda mais força porque parte de uma perspectiva que, durante muito tempo, foi marginalizada dentro da própria cena. Sua presença no festival evidencia que o protagonismo feminino no rap não se resume a ocupar palcos, mas também a disputar narrativas.
Mad in Brazza e o retrato de uma cena mais plural
Ao reunir Slipmami, Budah e MC Luanna ao lado de grandes nomes do rap e trap nacional, além da atração internacional Ty Dolla $ign, o Mad in Brazza oferece um retrato mais próximo da música urbana contemporânea. A cena não é mais uma única entidade. Ela é composta por vertentes, vozes, gêneros, estéticas, regiões e experiências diversas.
Essa diversidade não enfraquece o festival. Pelo contrário, fortalece. O público que acompanha rap e trap hoje consome diferentes linguagens dentro do mesmo universo cultural. A variedade vai do trap melódico ao R&B, do funk ao rap de mensagem, da estética digital ao som de rua.
Quando as mulheres ocupam esse espaço central, o festival se torna um reflexo de uma cena mais rica e complexa, onde cada voz contribui para a construção de um panorama musical mais inclusivo e representativo.
