Na tarde da quinta-feira (16), o rapper, ator e poeta Xamã foi agraciado com a Medalha Tiradentes, a mais alta distinção concedida pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). A entrega aconteceu no quintal da casa da avó, em Sepetiba, local onde o artista passou a infância até os 14 anos. Familiares próximos – mãe, irmãos, tios e primos – acompanharam o momento, que combinou reconhecimento institucional e intimidade familiar.
A cerimônia contou com a presença da deputada estadual Dani Monteiro (PSOL), responsável por conceder a honraria. Ao entregar a medalha, a parlamentar destacou a trajetória de Xamã como representante do rap carioca, ressaltando a capacidade do artista de levar a sonoridade da cidade para todo o país sem perder a conexão com as raízes de Sepetiba. A homenagem reforçou a ideia de que o rap pode ser porta‑voz de questões sociais e culturais, algo que tem sido pauta constante nas letras de Xamã.
A homenagem e seu simbolismo
Para a Alerj, a Medalha Tiradentes simboliza coragem, luta e contribuição ao desenvolvimento do estado. O prêmio, cujo nome remete ao ícone da Independência brasileira, foi criada para reconhecer personalidades que tenham impactado positivamente a sociedade. No caso de Xamã, a escolha da homenagem reflete não apenas seu sucesso comercial, mas também o engajamento em projetos comunitários e a defesa de pautas como a valorização da cultura de rua.
“É uma alegria enorme entregar a maior honraria da Alerj para um artista como o Xamã, que representa tão bem o Rio de Janeiro. Ele levou o rap carioca para o Brasil inteiro sem perder a conexão com Sepetiba, com a família, com a ancestralidade e com as pessoas que construíram a história dele”, afirmou Dani Monteiro.
A fala da deputada evidencia o reconhecimento de que o rap, antes marginalizado, agora ocupa espaço de destaque nas discussões culturais. A medalha, portanto, funciona como um selo de legitimidade para o movimento hip‑hop dentro das instituições públicas.
Além da medalha: livro e reconhecimento institucional
Como parte da homenagem, Xamã recebeu um exemplar do livro MC Não É Bandido, obra organizada por Dani Monteiro que reúne relatos e reflexões sobre a história dos MCs no Brasil. O presente reforça a ideia de que a produção artística deve ser acompanhada de documentação e estudo, contribuindo para a construção de um acervo histórico do rap nacional.
Após a entrega, a deputada e o rapper caminharam pelas ruas de Sepetiba, parando em uma padaria administrada pela prima de Xamã. O encontro informal serviu para discutir políticas públicas voltadas ao fortalecimento das batalhas de rima e das rodas culturais, iniciativas que a parlamentar tem defendido desde o início de seu mandato. A conversa destacou a importância de criar espaços permanentes para a prática do hip‑hop, garantindo que jovens de comunidades periféricas tenham acesso a recursos e formação.
Xamã na Universidade do Hip Hop
Durante o mesmo dia, Xamã confirmou que será um dos professores da Universidade do Hip Hop, programa criado pela UERJ em parceria com a Alerj. O curso tem como objetivo oferecer formação teórica e prática sobre a cultura hip‑hop, abordando temas como história, produção musical, linguagem poética e empreendedorismo. A presença de um artista de renome como Xamã traz credibilidade ao projeto e demonstra o compromisso da academia em dialogar com a cena urbana.
“Isso mostra o tamanho do compromisso dele com quem está chegando agora. O gigante Xamã entende que abrir caminho também é ensinar, compartilhar e fortalecer quem vem depois. Tenho certeza de que a presença dele nesse curso vai inspirar muitos jovens”, declarou Dani Monteiro.
A iniciativa da Universidade do Hip Hop reflete uma tendência crescente de institucionalização do rap, que busca transformar a arte em ferramenta de inclusão social. Ao assumir o papel de professor, Xamã amplia sua influência, passando de performer a mentor.
Impacto na cena do rap e na comunidade
Desde o lançamento de Malvadão, Xamã tem sido apontado como um dos principais nomes da nova geração do rap carioca. Seu estilo combina flow melódico, letras que abordam questões de identidade e uma produção que dialoga com o trap internacional sem perder a assinatura local. Essa combinação tem atraído um público diversificado, que inclui tanto fãs de longa data quanto jovens que descobrem o gênero pela primeira vez.
A ligação com Sepetiba permanece forte. Em entrevistas anteriores, o artista já mencionou que a comunidade que o viu crescer ainda influencia suas escolhas criativas. A cerimônia na casa da avó reforçou essa conexão, mostrando que o reconhecimento oficial não rompe o vínculo com a origem. Para os moradores de Sepetiba, a presença de Xamã como medalhista da Alerj representa um símbolo de que talentos da periferia podem alcançar reconhecimento estadual.
Além do aspecto simbólico, a homenagem pode gerar efeitos concretos. A visibilidade trazida pela medalha pode atrair investimentos em projetos culturais na região, como oficinas de produção musical, eventos de batalha de rima e espaços de coworking para artistas. A presença de Xamã na Universidade do Hip Hop também pode inspirar outros músicos a buscar formação acadêmica, ampliando o leque de oportunidades dentro do cenário.
O futuro do rap carioca parece ganhar mais sustentação institucional, mas ainda depende da energia das ruas. Artistas como Xamã, que conseguem transitar entre o palco, a academia e a comunidade, desempenham um papel crucial na manutenção desse equilíbrio. A Medalha Tiradentes, portanto, não é apenas um troféu; é um ponto de convergência entre reconhecimento oficial e compromisso social.
Com a medalha em mãos, o livro embaixo do braço e a sala de aula à frente, Xamã demonstra que a trajetória de um MC pode evoluir para múltiplas frentes. O próximo capítulo da sua carreira promete envolver mais jovens, mais projetos e, possivelmente, novas formas de levar a cultura do hip‑hop para além dos limites de Sepetiba.
